E você também não, calouro.
Eu sempre fui aquele tipo de pessoa meio
maluquinha que vive com a cara enterrada nos livros. Boas horas da minha
infância e adolescência foram gastas com passeios por entre as estantes de
bibliotecas e sebos, lugares que eu visitava para praticar uma série de rituais
esquisitos: Sentir a textura do papel, tocar a lombada do livro com os dedos,
ler a última página e imaginar como foi que a história se desenrolou até chegar
naquele desfecho. Se me perguntassem qual a coisa que eu mais gostava de fazer
na vida, eu diria: “Comer!”. E se me perguntassem qual era a segunda coisa que
eu mais gostava de fazer na vida, eu diria “Ler”, sem hesitar.
Até que entrei na faculdade.
Não sei o que aconteceu. Talvez minha paixão
pela leitura tenha se perdido entre as orelhas de “1984”, último livro que li,
ou esteja só embolada no meio da bagunça do meu armário (é bem provável), mas o
fato é que ela se foi. Descobri isso na primeira vez que voltei para casa com
minha pasta de plástico cheia de cópias dos textos de História Contemporânea.
Naquela fatídica tarde, eu estava determinada a ler todas as folhas, linha por
linha. Juro que estava. Porém, havia coisas mais importantes a ser feitas, como
arranjar uns trocados para comprar o moletom da Atlética (em minha defesa: Ele
é lindo!) e estudar o melhor caminho para chegar ao RU (Tanto faz. O Cabral é
um grande labirinto e todos os caminhos levam á Terra Prometida, onde há comida
barata e... Bom, o que pode ser melhor do que comida barata?). Não sou mulher de
deixar coisas importantes como essas para depois. E enquanto isso, novos textos eram colocados no xerox todo
dia e a pilha crescia como tinha que ser.
Ninguém fica parado enquanto uma montanha de
textos com a espessura da Bíblia se ergue diante de seus olhos. E aí vem a pior
parte: Eu tentei ler. Realmente tentei. E a coisa até fluía no primeiro
parágrafo, ou até na primeira página. Porém, em meio á conceitos de revolução e
nacionalismo, outras coisas ocupavam minha mente: A lembrança de uma derrota no
pebolim do Cacos (eu sempre perco) ou alguma frase idiota que eu soltei dentro
do Intercampi; A memória de algum videoclipe do Anthony Mandler (amo esse
homem!) ou uma reflexão aprofundada sobre a series
finale de Friends. No fim do dia, eu não tinha lido nada – ou tinha, mas
tão apressadamente que era como se não tivesse nem passado os olhos pelo texto.
Após semanas presa nesse círculo vicioso de ócio e preguiça, constatei que
havia me tornado uma dessas pessoas que mal lê um encarte de ofertas de supermercado sem
bocejar. Foi Hannah Arendt quem jogou a verdade na minha cara: Eu não amo ler.
Dias negros e difíceis vieram depois dessa
constatação. Após muito choro e ranger de dentes, descobri que não estou tão
mal quanto achei que estava: Ainda escrevo “ansioso” e “com certeza”
corretamente. Outro dia, fui a uma livraria e ainda passei os dedos pelas lombadas
coloridas dos livros e li uma última página ou duas. E mais: Estou até
melhorando. Numa calma quase irritante, li 60 e poucas páginas do Chatô. Agora
só faltam, sei lá, 600. É um progresso.
Quanto ao calhamaço de xerox... Não, eu ainda não li. E nem irei.
Foi Hannah Arendt quem jogou a verdade na minha cara: Eu não amo ler.
ResponderExcluirHAUSHUSHAUDIHSDUISHDUIDHUSDIHDSUIHSDUISDHUSDIHSDUIHDSUISDHUISHDUIHSUDSHIDUSHSDUIHDSUHSISDHUDSHDSUIHDSUIDSHUHDSHSD
muito bom vic, sério <3
Traduziu o sentimento de muitos!!
ResponderExcluirE é de assustar os próximos calouros! Hahahaha
Bom demais! Mesmo mesmo!
Pois é, outra coisa que vai se perdendo é o gosto por escrever, principalmente quando você tem de escrever muito em pouco tempo sobre algo que seria um milagre se algum calouro tivesse visto alguma vez na vida...
ResponderExcluirAdorei! Rindo um monte aqui! :D
ResponderExcluirmitou
ResponderExcluirÉ gritante o contraste quanto ao primeiro dia de aula né?! Todos entram e, principalmente o pessoal de jornal, responde: "amo ler e escrever". Achei a Hannah Arendt muito baixo astral também.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSempre tem um Ian Quint...
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