segunda-feira, 29 de abril de 2013

Eu não amo ler



E você também não, calouro.

Eu sempre fui aquele tipo de pessoa meio maluquinha que vive com a cara enterrada nos livros. Boas horas da minha infância e adolescência foram gastas com passeios por entre as estantes de bibliotecas e sebos, lugares que eu visitava para praticar uma série de rituais esquisitos: Sentir a textura do papel, tocar a lombada do livro com os dedos, ler a última página e imaginar como foi que a história se desenrolou até chegar naquele desfecho. Se me perguntassem qual a coisa que eu mais gostava de fazer na vida, eu diria: “Comer!”. E se me perguntassem qual era a segunda coisa que eu mais gostava de fazer na vida, eu diria “Ler”, sem hesitar.
  
Até que entrei na faculdade.

Não sei o que aconteceu. Talvez minha paixão pela leitura tenha se perdido entre as orelhas de “1984”, último livro que li, ou esteja só embolada no meio da bagunça do meu armário (é bem provável), mas o fato é que ela se foi. Descobri isso na primeira vez que voltei para casa com minha pasta de plástico cheia de cópias dos textos de História Contemporânea. Naquela fatídica tarde, eu estava determinada a ler todas as folhas, linha por linha. Juro que estava. Porém, havia coisas mais importantes a ser feitas, como arranjar uns trocados para comprar o moletom da Atlética (em minha defesa: Ele é lindo!) e estudar o melhor caminho para chegar ao RU (Tanto faz. O Cabral é um grande labirinto e todos os caminhos levam á Terra Prometida, onde há comida barata e... Bom, o que pode ser melhor do que comida barata?). Não sou mulher de deixar coisas importantes como essas para depois. E enquanto isso, novos textos eram colocados no xerox todo dia e a pilha crescia como tinha que ser.

Ninguém fica parado enquanto uma montanha de textos com a espessura da Bíblia se ergue diante de seus olhos. E aí vem a pior parte: Eu tentei ler. Realmente tentei. E a coisa até fluía no primeiro parágrafo, ou até na primeira página. Porém, em meio á conceitos de revolução e nacionalismo, outras coisas ocupavam minha mente: A lembrança de uma derrota no pebolim do Cacos (eu sempre perco) ou alguma frase idiota que eu soltei dentro do Intercampi; A memória de algum videoclipe do Anthony Mandler (amo esse homem!) ou uma reflexão aprofundada sobre a series finale de Friends. No fim do dia, eu não tinha lido nada – ou tinha, mas tão apressadamente que era como se não tivesse nem passado os olhos pelo texto. Após semanas presa nesse círculo vicioso de ócio e preguiça, constatei que havia me tornado uma dessas pessoas que mal lê um encarte de ofertas de supermercado sem bocejar. Foi Hannah Arendt quem jogou a verdade na minha cara: Eu não amo ler.

Dias negros e difíceis vieram depois dessa constatação. Após muito choro e ranger de dentes, descobri que não estou tão mal quanto achei que estava: Ainda escrevo “ansioso” e “com certeza” corretamente. Outro dia, fui a uma livraria e ainda passei os dedos pelas lombadas coloridas dos livros e li uma última página ou duas. E mais: Estou até melhorando. Numa calma quase irritante, li 60 e poucas páginas do Chatô. Agora só faltam, sei lá, 600. É um progresso.

Quanto ao calhamaço de xerox... Não, eu ainda não li. E nem irei.

8 comentários:

  1. Foi Hannah Arendt quem jogou a verdade na minha cara: Eu não amo ler.
    HAUSHUSHAUDIHSDUISHDUIDHUSDIHDSUIHSDUISDHUSDIHSDUIHDSUISDHUISHDUIHSUDSHIDUSHSDUIHDSUHSISDHUDSHDSUIHDSUIDSHUHDSHSD
    muito bom vic, sério <3

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  2. Traduziu o sentimento de muitos!!
    E é de assustar os próximos calouros! Hahahaha
    Bom demais! Mesmo mesmo!

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  3. Pois é, outra coisa que vai se perdendo é o gosto por escrever, principalmente quando você tem de escrever muito em pouco tempo sobre algo que seria um milagre se algum calouro tivesse visto alguma vez na vida...

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  4. É gritante o contraste quanto ao primeiro dia de aula né?! Todos entram e, principalmente o pessoal de jornal, responde: "amo ler e escrever". Achei a Hannah Arendt muito baixo astral também.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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